terça-feira, 16 de outubro de 2007

A minha verdade inconveniente

Texto de G.L.C.C – 23 anos - BH MG BRASIL enviado por e-mail.

Olá amigos e amigas. Primeiramente, gostaria de pedir a atenção de todos vocês e que leiam este documento todo, de coração. E se de fato ele servir ou despertar algo em você, repasse-o pra frente. Repasse-o pra quem realmente irá ler, realmente irá ter a devida atenção para ler.

Hoje, 15/10/2007, fui ao cinema com minha namorada assistir a última sensação do cinema brasileiro. O filme "Tropa de Elite" estrelado por Wagner Moura (espetacular ator) e que antes mesmo de sair oficialmente nas grandes telas do Brasil, já deu o que falar. Primeiro pela bizarra e impressionante ação da pirataria (e de algum babaca que fazia parte da produção do filme) que já rodava milhares de DVD´s falsos pelas ruas do Brasil, antes mesmo do produto original final chegar ao público. Segundo, pelo assunto óbvio, polêmico, diria talvez, "uma verdade inconveniente 2", pra nós brasileiros: a corrupção na polícia (a qual, não queria vê-lo nas telas ambém). E nela, mergulhados traficantes, usuários de drogas, classe média e alta, pobres, moradores de favelas, jovens escravos da vida e reféns do tráfico, universitários (entre eles, muitos de nós, formados ou ainda graduandos, a suposta "elite" deste país), e outros profissionais. Uma fórmula explosiva e altamente atraente para todos nós, público brasileiro, que adoramos ir ao cinema assistir à reprodução de notícias de histórias verídicas circuladas por nossos jornais todos os dias, vividas, por milhões de brasileiros, todos os dias.

O filme mostra a corrupção da polícia do Rio (não exclusiva àquele estado, óbviamente), como a massacrante maioria dos militares deste país, vivem de um salário ridículo dentro de um sistema assustadoramente sujo, corrupto, falido. Na trama, classe média, consumo de drogas, a atuação de traficantes em favelas, etc. Wagner Moura durante todo o filme narra a sua história. A história do Capitão Nascimento que faz parte do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), e procura desesperadamente um substituto para seu lugar, já que está prestes a virar pai.

O primeiro momento que me impressionou muito não foram as torturas ou "porradas" que os policiais davam nos supostos marginais da favela, e sim, ouvir gente rindo daquilo durante as falas do personagem de Wagner Moura. Poder, repressão a todo custo, violência. Sabemos, isso acontece todos os dias. E durante toda aquela história em que, o Capitão duro e repressor do BOPE, Cap. Nascimento lutava para sair da corporação, na outra ponta da história, Neto e Matias, Aspirantes que tentavam trabalhar de maneira honesta na polícia, fiéis aos seus princípios, acabariam por encontrar o BOPE e Nascimento, na favela. A narrativa de Wagner Moura, o tempo inteiro me fazia explodir a cabeça. Em uma cena, em que o BOPE invade a favela e prende marginais do tráfico que estavam acompanhados de usuários de classe média, estudantes, etc, o Cap. então pergunta: "Com quem estava a carga ein?!!?? Com quem???" e o estudante não respondendo à sua pergunta, tem o rosto esfregado de sangue no corpo de um traficante morto e é questionado novamente: "Você tá vendo esse aqui!!? Tá vendo?!! Quem matou!?? Quem matou ele??". O menino desesperado, responde: "Ninguém!!", titumbeia e depois diz: "Vocês!! Vocês!!". O Cap. Nascimento então responde: "Quem matou ele foi você!!!! Foi você que colabora com toda essa merda aqui, que sobe o morro, e financia toda essa merda aqui!!!!". E mais ou menos assim foi o diálogo que me marca durante o filme inteiro.

As cenas de universitários estudantes de Direito que se fazem de vítimas, reclamando da ação da polícia, que é bruta, muitas vezes estúpida, violenta. Com toda razão! Tem muito policial estúpido, escroto por aí mesmo! Enchem a boca pra falar mal da polícia, mas se esquecem que também sobem o morro (de alguma forma sobem, seja através de alguém conhecido ou eles próprios) pra comprar seu "bagulho", mesmo que um só, só um pouquinho, só pra enrolar um "fininho" e fazer a cabeça em casa, de boa, na paz. Mas se esquecem que, mesmo comprando pouco, consumo próprio, é dinheiro pra traficante, e dinheiro pra traficante é mais arma. E arma na mão de bandido é tiro pra todo lado! E tiro pra todo lado, é morte de gente inocente com balas perdidas. É mais droga pro viciado subir o morro com a televisão da mãe e o vídeo-game do irmão, na fissura de ficar de "boa", desesperado por um "pó", uma "pedra", um "baseado", seja lá o que for. Ou mesmo pro bacana que compra aquela "barra verdinha" pra vender pra galera na faculdade "fazer a cabeça" nos intervalos, nos shows, num sítio, curtir a "onda". E é um gigantesco e forte ciclo que parece não ter fim. Sei que possa estar soando agressivo a algumas pessoas, amigas minhas, amigos meus, que usam a maconha por exemplo, mas são responsáveis, trabalham, estudam, de fato dão valor ao que fazem, tiram do seu bolso pra ter sua "curtição", mas não prejudicam ninguém, não são doentes, não roubam. Ao contrário: produzem algo de útil pra sociedade. Sei de inúmeros cientistas renomados que usam a droga. Mas fazem por onde. Mudei muito minha cabeça em relação à isso, na verdade ao consumo de maconha. Muitos de vocês conhecem de perto minha história de vida, e resolvi escrever pra desabafar aqui, porque passo há anos, muitos anos, uma vida complicada ao lado de alguém problemático, vítima de si mesmo e das drogas que o destruíram. Todas elas. Depois de mais um "tapa na cara" nos cinemas, não consigo ir embora do cinema e ficar calado. "Bicho de Sete Cabeças", "Cidade de Deus", "Carandiru". Já vi braço estourar de pus de sangue com amputação quase certa (Deus foi grande e o braço sarou a tempo), já brinquei com arma de verdade achando que era brinquedo, já achei cachimbo de crack, já furei meu dedo sem querer com uma agulha descartável. Já chorei a perda de tv´s, som, relógio, vídeo-game, roupas, tênis, grana, etc. Chorei de ódio, mas isso é bem material, a gente recupera. Que se exploda!! Mas já chorei muito mais em apanhar de alguém descontrolado, desesperado por grana pra comprar droga, já chorei por perder a paz em minha vida e ter que assistir uma mãe desesperada tentar de todas as formas possíveis tirar o seu filho do fundo do poço. Vê-la sofrer, e sofrer. Chorei por conhecer outra pessoa agressiva, violenta, em uma pessoa que tanto amo quando ela é ela mesma. De ter que assistir impotente, a decadência de alguém que amo, enfiado em buracos atrás de "curtição", "onda", consumido pelo vício que o desintegra há anos e aos poucos. E como tudo nessa vida é conseqüência, chorar por ter que vê-lo todo dia tomar seus remédios que eu nunca pensei que ele precisaria tomar. Que poderia acontecer em minha casa. Que não era só coisa de livros, campanhas de saúde na TV, aulas de Ciências. Estou cansado de ver todo dia, um filho da puta de um traficante, encher o bolso de grana e armas enquanto entope "playboyzinhos" de classe média e alta com seus "produtos". Enquanto mesmo aquele que nem pega o "produto" na fonte, paga ao "amigo" que descolou de outro amigo "um do bom", continua longe de toda a realidade, e continua a financiar toda essa merda de tráfico. Toda essa porcaria de droga!!!

Desculpem-me amigos usuários. Não estou os chamando de vagabundos, de marginais. Pensei muito, continuo não gostando, mas começo a pensar que se talvez a maconha fosse legalizada, parte do tráfico ruía, e pelo menos quem realmente produz algo na vida, é trabalhador, honesto, ganha e gasta o seu dinheiro como bem entende, poderia ter então a sua própria droga, pra consumo próprio, e não enriquecimento ilícito, armas, poder, violência. Isso não é só uma simplista solução. Sabemos que os buracos são bem mais embaixo. O que me deixa indignado e triste, é ver um bando de gente nova como eu, ir ao cinema, assistir a filmes do gênero, acharem "doido demais o filme né?", mas não terem absorvido absolutamente nada, nada do que se mostra. Não terem suas gargantas vários nós em pensar que tem muita gente por aí sofrendo tortura (de várias formas: extorsão, ameaças, etc) de policial corrupto, morrendo de graça em meio à balas perdidas, insegurança por todos os lados, injustiça social, falta de oportunidade pra quem não tem como alcançá-las, tráfico, famílias perdendo seus filhos, mães, pais, por causa da droga. E de continuarem a usar sua droga despretensiosamente, longe daqueles problemas todos, longe da raiz, longe do traficante que traz a droga, e que mata gente como troca de roupa. De ver crianças de 10 anos sonhando em ser aviãozinho, já imaginando seu plano de carreira naquele emprego de "servidor público", (afinal de contas, drogas são um bem de parte do público, pois se não houvessem consumidores, não existiria mais a quem vender), imaginando a promoção a vapor, e logo logo a guardião da boca de fumo. Com competência, sorte e sucesso, gerente de todo negócio (depois de seus vários patrões morrerem, o que não deve demorar muito), com AR15´s, granadas, Uzi´s, Automáticas, 38´s mostrando todo o poder em suas mãos. Parem e pensem um pouco!!! Parem pelo amor Deus, e pensem um pouco!!! Seja você usuário ou não. De alguma maneira, de alguma forma, você pode estar contribuindo pra tudo isso. Não compre mercadoria roubada, não financie o tráfico, não seja omisso, e estúpido o suficiente pra dizer que isso tudo não tem nada a ver contigo......





G.L.C.C – 23 anos - BH MG BRASIL

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