terça-feira, 17 de julho de 2007

Faça o teste de lavagem cerebral

Escrito por Carlos Orsi Martinho

Você é uma vítima em potencial para cultos como o Heaven's Gate, que levou seus seguidores ao suicídio? Sua mente poderia ser controlada através de técnicas de doutrinação e lavagem cerebral? A revista online Omni está oferecendo aos usuários da Internet um teste para descobrir quais suas vulnerabilidades nesse campo. Elaborado pelo psicólogo Keith Harary, o teste funciona mais ou menos como um daqueles questionários de revistas femininas - e talvez tenha exatamente o mesmo valor como peça "científica"- mas ajuda a expor algumas das técnicas usadas por figuras autoritárias.

O suposto uso de "lavagem cerebral" nem sempre foi um privilégio de cultos suicidas, no entanto. Quando surgiu, nos anos 50, o termo inglês "brainwashing" significava destruir todas as crenças e valores de uma pessoa, substituindo-os por outros, de interesse do "lavador". Os americanos começaram a falar nisso porque alguns soldados desertaram durante a Guerra da Coréia, voltando-se para o comunismo. Claro, essa primeira definição da "lavagem" pode enquadrar qualquer tipo de persuasão, inclusive os mais legítimos - alguém poderia até dizer que os missionários cristãos haviam usado "lavagem cerebral" nos índios. Para evitar esse tipo de embaraço, a idéia logo se desenvolveu. "Lavagem cerebral" passou a denotar métodos mais escusos de persuasão, com o uso de drogas e tortura.

O conceito recebeu novo impulso no final dos anos 50, com a publicação do romance "The Manchurian Candidate", de Richard Condon (depois um filme, estrelado por Frank Sinatra), que contava a história de um soldado que, "programado" pelos chineses durante a Guerra da Coréia, desenvolveu duas personalidades: uma, ordeira e capitalista, a outra, comunista e assassina. Essa segunda faceta viria à tona quando os chineses quisessem abater algum alvo político dentro dos EUA.

Na época, não havia (como não há até hoje) qualquer evidência científica de que uma pessoa pudesse ser manipulada dessa forma, mas mesmo assim o livro casou muito bem com a mentalidade paranóica da Guerra Fria - e, coincidência ou não, a CIA estava trabalhando em algo muito parecido: o projeto MK-ULTRA, que durou, oficialmente, de 1953 a 1973. Em 74, o MK-ULTRA foi exposto ao público por uma investigação do Senado norte-americano. O objetivo do projeto era "ganhar controle sobre o comportamento humano", através do uso de drogas (como o LSD) e outras "técnicas", aplicadas em seres humanos - voluntários ou nem tanto. Oficialmente, o programa não produziu qualquer resultado prático - algumas pessoas ficaram loucas, outras muito machucadas, mas ninguém se tornou "controlável". Quem quiser saber mais sobre as experiências da CIA pode dar uma olhada nos documentos oficiais disponíveis na biblioteca da Universidade George Washington sobre o uso de radiação nuclear em seres humanos.

Antes do final do MK-ULTRA, no entanto, o termo "lavagem cerebral" já havia contaminado a mitologia dos anos 60. Pais incapazes de compreender seus filhos passaram a acusar os gurus da contracultura de "lavar" os cérebros dos jovens. Essa onda deu origem a uma nova profissão, a dos "desprogramadores" - pessoas que "resgatavam" os adolescentes das más companhias e os "reeducavam". Houve quem dissesse que a verdadeira lavagem era feita pelos desprogramadores, e não pelos cultistas, e o ofício teve uma vida curta (embora, às vezes, lucrativa).

Atualmente, há quem diga que nossas mentes estão sendo controladas por alienígenas, pela televisão, pelo governo, pelas indústrias, por drogas nos reservatórios de água ou por implantes subcutâneos. Teorias desse tipo se multiplicam via Internet, e não haveria espaço para fazer uma lista de todos os sites que defendem uma ou outra posição (experimente usar o termo "mind control" em seu mecanismo de busca favorito). Claro, poucos desses teóricos do controle da mente explicam como eles conseguiram se libertar - afinal, se toda a água do mundo está drogada, o que esses caras bebem? E, se nós estamos sob controle, jamais iríamos acreditar nessa conspiração. Os mestres não permitiriam.

FONTE: http://www.dantas.com/realidadebr/textos/lavagemcerebral.htm

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